terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Enterrados Vivos


É mais escura anoite dos que vagueiam pelas vielas amargas da dependência química. “Vagabundos”, sujos, dementados pelo último trago. Ansiosos e extremados pelo próximo. A “escória” teve mãe – uso a maternidade para lembrar da igualdade humana - antes de se deparar com a primeira oferta do traficante. O momento fatídico da primeira experiência é também o passo que leva milhões de nossos jovens e amigos a trilhar o caminho onde a solidão é tão intensa que engela os ossos e turva qualquer pensamento de esperança.

A situação é perfeitamente visível aos olhos dos que dizem que se importam, mas que trancam suas portas quando as cortinas se fechama e o público que aplaude vai embora. A “bocas de fumo” continuam nos mesmos lugares, e os traficantes também. Estão nas esquinas, nos bairros e nas praças, onde se abrigam os filhos e netos das famílias que gritam aos ouvidos moucos. Quer saber mais sobre o assunto, ou conferir se estou mentindo? Escute então as mães e os pais que perderam seus filhos para a dependência química.

Eles certamente falarão da agonia causada pelos filhos dementados pela violência das drogas. Falarão de uma dor que não tem alívio, porque não tem remédio. Contarão histórias assustadoras, difíceis de acreditar sobre as atitutes insanas e grosseiras daqueles que eles colocaram no mundo. Terão lagrimas nos olhos quando, vasculhando o passado, relembrarem momentos felizes com seus filhos ainda crianças, tão desejados, tão queridos, tão amados...

Se continuares ouvindo, pais e mães buscarão na memória as recepções festivas, calorosas e inesquecíveis da infância de seus filhos. De quando chagavam  do trabalho e eram entrelaçados no pecoço por seus pequenos braços. Quando faziam festa pelo simples fato de estarem juntos, e quando os braços desses mesmos pais ainda eram capazes de proteger seus amados das dores e dos desassossegos do mundo. Para esses filhos perdidos, o colo dos pais também já não é mais suficiente para aliviar suas agonias e fazê-los sentir seguros. É tarde demais para todos.



Val Sales      

Meu Espelho


Hoje recuso identificar-me com teu ódio. Me recuso a partilhar do teu ressentimento pelos outros. Do teu sentimento inferior que dia e noite impregna minha alma de culpa. Digo, porque já estive no lugar do que julga e do que é julgado, do que condena e do condenado, do que domina e do que é dominado, do que pede e do que doa, do que atira pedras e do que é apedrejado...

Ter estado nas duas posições me faz refletir sobre a pressa que tenho em julgar os outros. A coisa mudou quando passei  a me colocar exatamente no lugar do escarnecido. Aprendi que tanto o bandido como o mocinho têm uma história para contar e que ninguém está interessado em ouvir. Sei disso porque também já estive nas duas posições e... resolvi escrever. Assim, não acordo mais os que dormem.

Hoje, irmão e companheiro de jornada, recuso-me a odiar-te. Hoje não serei teu algoz. Não, não importa o que digam de ti. Hoje minha alma está em paz e, com a sublimidade deste momento, desejo que haja uma luz para iluminar teu caminho quando todas as outras se apagarem.


Val Sales