Ainda estou aqui!
Ei! Ainda estou aqui. Apesar
das tuas fugas, velo o teu sono e vejo o inverno que consome tua alma no grau
máximo do que se pode suportar. Sei o que tens feito por ai. Conheço o chão
fétido e repugnante por onde andas, anestesiado pelo efeito das drogas. Conheço
de perto o suplicio inconcebível que assola os teus poucos momentos de lucidez.
Lucidez que não produz nenhum alívio.
Do meu ponto fixo de
observação me pergunto se o que me insulta mais é tua imagem miserável ou a
indiferença nos olhos do poder público que teima em não vê que a dependência
química se tornou um problema social e não mais uma questão simples de família.
Meu irmão! Meu querido irmão! Sangue do meu sangue...
As lágrimas que
acompanham os soluços compulsivos do meu peito já não são só por ti, que te
tornaste presidiário das drogas, mas também pelos outros tantos que dividem essa
cova imunda de onde não consegues sair. Outros cegos, aflitos, dementados pela
fome, o frio, a fadiga, a insônia e os padecimentos morais.
Esses outros rostos eu
conheci enquanto te procurava desesperada por vielas e becos escuros. Nesse
momento, te peço apenas que feche os olhos e sonhe com o belo. Entregue-se a
algum momento inesquecível da nossa infância. A uma lembrança balsamizante que
te traga alívio. Ainda que por um milésimo de segundo, quero que veja a minha
imagem diante de ti.
Estou aqui. Estou contigo.
Vem! Tenta de novo! Põe-te a caminho da estrada. Não tenha medo! Sigo contigo.
Velo teu sono. Não vou te deixar.
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