segunda-feira, 3 de setembro de 2012


E ai cara!

Aqui estamos todos bem. Espero que você também esteja. Estou te escrevendo porque fiquei preocupada depois da última visita que te fiz. Percebi que você esperava outras visitas que não teve. O intuito desta mensagem é justamente te lembrar que a tua recuperação não depende de A ou B, ou seja, de outras pessoas além de ti. Você sabe disso.

Isto também não significa que você está sozinho. É só um lembrete para que te agarres à tua sobriedade. As conquistas e todo o resto virão como fruto da tua recuperação. Você lembra do reecontro com a filha que você não via há 20 anos? De como ela nos encontrou e como te respeita e te admira? Isso foi uma vitória cara. Por esta e outras bençãos que virão, concentre-se no seu objetivo: a recuperação.

Só os valentes enfrentam as batalhas da vida e aprendem com a solidão. Você é valente. Lembra aquela música que ouvíamos no rádio do carro quando passeavamos na estrada de Senador Guiomard e parávamos para tomar caldo de cana? Ela diz o seguinte: “Aguenta firme. Não desista. Continue a lutar”.

E ainda: “Se você não desistir é pra mim inspiração pra também permanecer fiel e firme. Eu tô contando contigo. Deus tá contando com a gente. O céu inteiro se move pra ver a gente vencer”. Peço a Deus que abençoe tua vida e te faça vencedor. Um grande abraço e muita luz.

Sua irmã.  

sexta-feira, 1 de junho de 2012


Ainda estou aqui!

Ei! Ainda estou aqui. Apesar das tuas fugas, velo o teu sono e vejo o inverno que consome tua alma no grau máximo do que se pode suportar. Sei o que tens feito por ai. Conheço o chão fétido e repugnante por onde andas, anestesiado pelo efeito das drogas. Conheço de perto o suplicio inconcebível que assola os teus poucos momentos de lucidez. Lucidez que não produz nenhum alívio.

Do meu ponto fixo de observação me pergunto se o que me insulta mais é tua imagem miserável ou a indiferença nos olhos do poder público que teima em não vê que a dependência química se tornou um problema social e não mais uma questão simples de família. Meu irmão! Meu querido irmão! Sangue do meu sangue...

As lágrimas que acompanham os soluços compulsivos do meu peito já não são só por ti, que te tornaste presidiário das drogas, mas também pelos outros tantos que dividem essa cova imunda de onde não consegues sair. Outros cegos, aflitos, dementados pela fome, o frio, a fadiga, a insônia e os padecimentos morais.

Esses outros rostos eu conheci enquanto te procurava desesperada por vielas e becos escuros. Nesse momento, te peço apenas que feche os olhos e sonhe com o belo. Entregue-se a algum momento inesquecível da nossa infância. A uma lembrança balsamizante que te traga alívio. Ainda que por um milésimo de segundo, quero que veja a minha imagem diante de ti.

Estou aqui. Estou contigo. Vem! Tenta de novo! Põe-te a caminho da estrada. Não tenha medo! Sigo contigo. Velo teu sono. Não vou te deixar. 

  

domingo, 25 de março de 2012

O Perdão

Durante muitos anos te odiei por desprezo às tuas atitudes e por identificar-me com o que falavam de ti. Muitas vezes pedi a Deus que me livrasse desse sentimento corrosivo (o ódio), mas, só consegui êxito quando passei a me colocar no teu lugar, meu irmão. A partir desse momento te perdoei. Senti que o perdão é uma dádiva que não tem preço. Ele nos torna melhores como seres humanos. Nos aproxima de Deus.


quarta-feira, 21 de março de 2012

Os Passos de Alcoólicos Anônimos


Os Doze Passos de Alcoólicos Anônimos – voltados para a reformulação de vida dos dependentes químicos em recuperação – podem ser utilizados por qualquer pessoa que não sofre com a doença, isto é, que não têm problema com bebida, mas que deseja alcançar algum grau de crescimento interior baseado na auto-avaliação.

Em um breve resumo vou sintetizar os que considero – na minha humilde avaliação – como sendo os principais deles. O Primeiro Passo: “Admitimos que éramos impotentes perante o álcool – que tínhamos perdido o domínio sobre nossas vidas”, é o momento em que o alcoólatra “joga a toalha”, se rende ao fato de que tem um problema com a bebida e que precisa de ajuda para frear o consumo.

O Segundo Passo: Viemos a acreditar que um Poder superior a nós poderia devolver-nos a sanidade”, sugere que o alcoólatra busque em Deus – na forma que cada um O concebe – a força necessária para se manter sóbrio. Alguns membros chegam a se  amparar nos grupos de mútua ajuda como se esses fossem sua religião. Eles encontram a presença de Deus no depoimento de companheiros que atravessaram o inferno da dependência química e, uma vez livres da compulsão, reconquistaram mais do que haviam perdido.

O Terceiro Passo: “Decidimos entregarnossa vontade e nossa vida aos cuidados de Deus, na forma que O concebíamos”, sugere um mergulho nos braços de Deus, o que alguns costumam chamar de um “salto no escuro”. O Quarto Passo sugere um mergulho em sí mesmo para um inventário moral. Os passos seguintes orientam sobre uma nova relação com o mundo – família, trabalho, etc.

Resumindo: uma vez que se identifica e se assume a própria fraqueza sobre alguns defeitos de caráter (como o orgulho, a arrogância, a ira e outros) passa-se a trabalhar a eliminação deles. A reformulação de vida está ao alcance de todos. Vive-se um “dia de cada vez”, tornando-se melhor a cada momento como pai, filho, irmão, amigo, patrão, empregado, enfim, como ser humano.  

   

quinta-feira, 15 de março de 2012

A força que vem da fraqueza

Digo e repito que poucos seres humanos têm tanto respaldo para falar de superação quanto os dependentes químicos em recuperação. Seja o viciado em álcool, drogas ou as duas substâncias juntas. Uso o termo “viciado” no tempo presente, porque a dependência química é uma doença incurável, o que significa que não existe ex-alcoólatra ou ex-drogado. O trabalho de recuperação dura a vida toda. Por isso se usa o termo: “Um dia de cada vez”, entre àqueles que passaram a cultivar a sobriedade nos grupos de mútua-ajuda.

Poucas pessoas passaram por tantas aflições, medo, solidão e sentimento de desamparo quanto os dependentes químicos durante seus anos de vício ativo. O difícil não é parar de beber ou de usar outras drogas. Difícil é se manter sóbrio diante da oferta do traficante, da propaganda de bebida na TV e dos “amigos”, além das dificuldades que cada um enfrenta nesse processo, seja nos revezes da abstinência ou na falta de confiança dos parentes. Tudo pesa para baixo e para enfraquecer àqueles que perseguem a sobriedade. E é ai que mora o paradoxo: A fraqueza se transforma em força.

Poucos seres humanos têm tanto a ensinar sobre o poder da serenidade, humildade e simplicidade quanto os que emergiram dos fundos de poços da dependência química. Eles sabem quantas vezes morreram como homens (e mulheres) e quantas vezes desejaram estar realmente mortos. Eles, que provaram da vergonha e da impotência diante do primeiro gole, trago, cheirada ou picada, sabem o quanto é difícil, mas, estão por ai para dizer que o impossível é só um pouquinho mais difícil. A lição de superação dada por eles serve para o enfrentamento de todo e qualquer tipo de obstáculo. PENSE NISSO!    

segunda-feira, 12 de março de 2012

A força que vem da fraqueza

A força que vem da fraqueza

Digo e repito que poucos seres humanos têm tanto respaldo para falar de superação quanto os dependentes químicos em recuperação. Seja o viciado em álcool, drogas ou as duas substâncias juntas. Uso o termo “viciado” no tempo presente, porque a dependência química é uma doença incurável, o que significa que não existe ex-alcoólatra ou ex-drogado. O trabalho de recuperação dura a vida toda. Por isso se usa o termo: “Um dia de cada vez”, entre àqueles que passaram a cultivar a sobriedade nos grupos de mútua-ajuda.

Poucas pessoas passaram por tantas aflições, medo, solidão e sentimento de desamparo quanto os dependentes químicos durante seus anos de vício ativo. O difícil não é parar de beber ou de usar outras drogas. Difícil é se manter sóbrio diante da oferta do traficante, da propaganda de bebida na TV e dos “amigos”, além das dificuldades que cada um enfrenta nesse processo, seja nos revezes da abstinência ou na falta de confiança dos parentes. Tudo pesa baixo e para enfraquecer àqueles que perseguem a sobriedade. E é ai que mora o paradoxo: A fraqueza se transforma em força.

Poucos seres humanos têm tanto a ensinar sobre o poder da serenidade, humildade e simplicidade quanto os que emergiram dos fundos de poços da dependência química. Eles sabem quantas vezes morreram como homens (e mulheres) e quantas vezes desejaram estar realmente mortos. Eles, que provaram da vergonha e da impotência diante do primeiro gole, trago, cheirada ou picada, sabem o quanto é difícil, mas, estão por ai para dizer que o impossível é só um pouquinho mais difícil. A lição de superação dada por eles serve para o enfrentamento de todo e qualquer tipo de obstáculo. PENSE NISSO!    

terça-feira, 6 de março de 2012

Levanta, anda!

Levanta, anda!

Superação não é para qualquer um. É coisa de gente grande. Gente forte. De gente assim, como nós dois e tantos outros escravos do medo. De pessoas tantas vezes afrontadas pelo descaso e pela solidão dos dias mornos. Nesses momentos descobrimos  forças desconhecidas de nós próprios. Nos reerguemos da lama e do charco que consumiu a nossa moral, o respeito próprio e o dos outros em relação a nós. Quantos nos torceram o nariz, não foi? Você se reergueu e caiu novamente. Mas, a queda - assim como o levantar - é normal para os que buscam a liberdade. Gente como eu e você.

Por isso, meu irmão, o que estais ainda fazendo nesse fundo de poço? Estou te esperando para aqueles passeios de carro na estrada de Senador Guimard, às idas ao aeroporto e ao  caldo de cana que a gente parava para tomar enquanto conversava sobre nós mesmos e o mundo. Lembra? Sei que lembra! A droga e o álcool não são mais poderosos do que o amor e as recordações de dois irmãos.

Te disse que nunca mais te odiaria, e não importa o que falem de ti, estarei sempre do teu lado. No entanto, nada posso fazer diante da tua recusa em reagir contra a dependência que te consome os dias. Só quero que saibas que não estais sozinho. Não tenha medo. Enxugue as lágrimas. EU ESTOU AQUI. Levanta, anda!   

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Em paz com o mundo

Quantas vezes você disse "Bom Dia" ao desconhecido que passa na rua? Na maioria das vezes, tomou a iniciativa ou apenas respondeu? Se a resposta for positiva para a primeira opção, parabéns! Você não vai mundar o mundo, mas está de bem ele. Faço essa observaçãoo para destacar que nós, seres humanos, continuaremos a culpar os outros (o mundo) por nossas tristezas e decepções enquanto não percebermos que cada escolha certa ou errada do caminho é feita por nós mesmos.

Agimos como se terceiros (pais, irmãos, amigos, vizinhos) tivessem que se adequar à nossa exigência e, por essa postura rígida pagamos o preço da decepção, do sofrimento, do ressentimento e de outros derivados do orgulho ferido. Comecemos então a fazer as pazes com o mundo e ele nos será recíproco. Experimente dar Bom Dia a dez pessoas que cruzarem seu caminho na rua e vai perceber que, no mínimo, nove responderão positivamente ao seu cumprimento.

Parece bobo, mas é através de gestos simples como esse percebemos que não estamos tão sozinhos, e que o outro, assim como nós mesmos, muitas vezes precisa apenas de um "Bom Dia" para se sentir importante. Por meio de dessas pequenas atitudes perceberemos que a mudança no mundo começa quando nos disponibilizamos a nos tornar melhores. Passo então a dar exatamente o que gosto de receber: carinho, atenção, respeito, compaixão e solidariedade.

É certo que existirão os que não estarão dispostos a ser reciprocos, tal qual aquele "1" dos 10 que não comrrespondeu ao Bom Dia. Porém, no exercício diário da mudança de comportamento, percebemos que o carinho da maioria supera essas exceções. Esse primeiro passo nos impulssiona a olharmos para dentro de nós mesmas e identificarmos defeitos de caráter como o orgulho, a arrogância, a prepotência e a ira. Uma vez identificados, passamos a exercitar as tentativas de eliminação de cada um deles.

Ésse exercício diário leva à concepção de que os valores mais importantes da vida são aqueles que o dinheiro não compra, à exemplo do respeito, a admiração, a amizade sincera e o amor. Nesse caso, aproveito para deixar aqui a definição do amor no ponto de vista do psicoterapeuta M. Scott Peck, em seu livro, A Trilha Menos Percorrida: "Embora o ato de nutrir o crescimento espiritual do outro tenha o efeito de alimentar o nosso, a distinção entre o eu e o outro é sempre preservada - essa é uma das principais características do verdadeiro amor". Ele diz que quem oferece se sente tão bem quanto o que recebe, e, ainda,  que quem ama verdadeiramente torce e contribui para o crescimento do ser amado.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Enterrados Vivos


É mais escura anoite dos que vagueiam pelas vielas amargas da dependência química. “Vagabundos”, sujos, dementados pelo último trago. Ansiosos e extremados pelo próximo. A “escória” teve mãe – uso a maternidade para lembrar da igualdade humana - antes de se deparar com a primeira oferta do traficante. O momento fatídico da primeira experiência é também o passo que leva milhões de nossos jovens e amigos a trilhar o caminho onde a solidão é tão intensa que engela os ossos e turva qualquer pensamento de esperança.

A situação é perfeitamente visível aos olhos dos que dizem que se importam, mas que trancam suas portas quando as cortinas se fechama e o público que aplaude vai embora. A “bocas de fumo” continuam nos mesmos lugares, e os traficantes também. Estão nas esquinas, nos bairros e nas praças, onde se abrigam os filhos e netos das famílias que gritam aos ouvidos moucos. Quer saber mais sobre o assunto, ou conferir se estou mentindo? Escute então as mães e os pais que perderam seus filhos para a dependência química.

Eles certamente falarão da agonia causada pelos filhos dementados pela violência das drogas. Falarão de uma dor que não tem alívio, porque não tem remédio. Contarão histórias assustadoras, difíceis de acreditar sobre as atitutes insanas e grosseiras daqueles que eles colocaram no mundo. Terão lagrimas nos olhos quando, vasculhando o passado, relembrarem momentos felizes com seus filhos ainda crianças, tão desejados, tão queridos, tão amados...

Se continuares ouvindo, pais e mães buscarão na memória as recepções festivas, calorosas e inesquecíveis da infância de seus filhos. De quando chagavam  do trabalho e eram entrelaçados no pecoço por seus pequenos braços. Quando faziam festa pelo simples fato de estarem juntos, e quando os braços desses mesmos pais ainda eram capazes de proteger seus amados das dores e dos desassossegos do mundo. Para esses filhos perdidos, o colo dos pais também já não é mais suficiente para aliviar suas agonias e fazê-los sentir seguros. É tarde demais para todos.



Val Sales      

Meu Espelho


Hoje recuso identificar-me com teu ódio. Me recuso a partilhar do teu ressentimento pelos outros. Do teu sentimento inferior que dia e noite impregna minha alma de culpa. Digo, porque já estive no lugar do que julga e do que é julgado, do que condena e do condenado, do que domina e do que é dominado, do que pede e do que doa, do que atira pedras e do que é apedrejado...

Ter estado nas duas posições me faz refletir sobre a pressa que tenho em julgar os outros. A coisa mudou quando passei  a me colocar exatamente no lugar do escarnecido. Aprendi que tanto o bandido como o mocinho têm uma história para contar e que ninguém está interessado em ouvir. Sei disso porque também já estive nas duas posições e... resolvi escrever. Assim, não acordo mais os que dormem.

Hoje, irmão e companheiro de jornada, recuso-me a odiar-te. Hoje não serei teu algoz. Não, não importa o que digam de ti. Hoje minha alma está em paz e, com a sublimidade deste momento, desejo que haja uma luz para iluminar teu caminho quando todas as outras se apagarem.


Val Sales